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Alice Não Escreva…

Alice Não Escreva…

Garota com vestido azul amarrada olhando um chapéu

Onde o Chapeleiro Louco foi?

Conhecemos mais a história de Alice no país das maravilhas do que a de Alice no país dos espelhos. A segunda viagem de Alice a

leva a um mundo diferente, e Lewis Carroll (o autor, para quem não sabe) usa e abusa de metáforas, especialmente a de um jogo de Xadrez, já que Alice quer se tornar Rainha.

Neste site, encontrei esta ótima passagem: “É possível ver em cada página a crença que Alice tem no que ocorre à sua volta, ela se agarra a esse ambiente nonsense muito mais do que a sua própria realidade, já que o que ela mais deseja é viver algo que a tire da rotina e que a faça ir mais além. E é quando eu a observo por esse ângulo que eu percebo que tenho mais afinidade com ela do que eu suporia em um primeiro momento.”

Hoje vivemos um pouco disso desde que acordamos com um companheiro que a contemporaneidade nos oferece: o celular. Além de várias funções como o despertador que nos acordou, o tempo que está fazendo lá fora, e suas variações durante o dia, ele nos permite acesso as famosas (ou infames) redes sociais. Através de uma rede de pessoas conectadas através de diversas tecnologias, construímos nossas listas de amigos, com os quais conversamos, trocamos experiências, compartilhamos aventuras e o nosso dia a dia, usando texto, imagens, fotos, músicas, vídeos.

Estabelece-se um contato com um mundo que é paralelo ao mundo concreto – que habitamos fisicamente – e um outro, que nos acostumamos a chamar de virtual, onde também “existimos” através de representações de quem somos, que podem ser muito próximas ou diversas do nosso eu “real”.

Se você ainda não dormiu após esta longa introdução, é aqui que eu digo que esse mundo virtual virou nosso país do espelho. Não temos o Coelho Branco nem o Chapeleiro Louco, nem as metáforas do autor, contudo temos um mundo muito parecido com o nosso, onde…fazemos as coisas ao contrário!

Conhecemos as pessoas às vezes por perguntas tipo questionário. Uma delas, famosa no tempo da internet em preto e branco e sem som, era “de onde tc?” (eu odiava essa abreviação. Na verdade odiava o “teclar” que é o que significa tc). Aí se faziam perguntas íntimas e rolavam conversas rasas e pragmáticas.

No caso do BDSM, salas de chat com o tema tinha mais do mesmo acima, onde além de local e características físicas, trocava-se “cards”, “figurinhas”, com os detalhes, títulos e preferências:

– Dom Pulsar Mega Plus Supremo Lord da Casa Tormenta: Dominador (surpreendente, né?), sádico, interessado em escravas reais, que saibam seu lugar, e obedeçam aos meus desejos, sem limites. Contrato será assinado

– Sub Alma do Espírito da Essência da Verdadeira Entrega: pronta para se prostrar aos pés de um verdadeiro Mestre que a conduzirá pela estrada da submissão iluminada pela luz da alma das pétalas e espinhos, sublimada pela compreensão do seu devido lugar… (um minuto, minha glicemia aumentou, já volto…)

Fast Forward (adianta o vídeo aí). A tecnologia hoje possibilita muito mais que isso. Encontros virtuais por vídeo, realidade virtual, vibradores que podem ser ligados a seu computador para emular estímulos à distância…

Casal separado com dispositivos sexuais à distância

Sexo seguro…

Esse é o nosso país do espelho. As personas virtuais cada vez mais perdem o vínculo com a realidade. As pessoas cada vez mais isoladas por sistemas sócio-político-econômicos que as transforma em ilhas de consumo, que se transforma em arquipélagos que seguem marés de tendências produzidas e onde o contato real se perdeu.

Não se pergunta sobre quem é essa pessoa, que música ela gosta, onde ela trabalha…e sim “você é sub?” você é sádico?” “curte velas”? – Nada contra esses esclarecimentos eles são importantes, fundamentais e necessários. Mas o que estou questionando aqui é que essa forma de entrevista não nos aproxima da pessoa, revela apenas uma parte de quem ela é.

E o pior é que esse imediatismo acontece em sua maior parte no nosso país do espelho, a “realidade virtual”. E o mundo real passa a ser secundário. As pessoas se encontram, munidas de seus smartphones, e muitas vezes os deixam de lado apenas para interações superficiais.

Eu não sou isento, nem puro, nem santo. Eu uso das tecnologias, eu uso meu smartphone. Eu tenho perfis, páginas. Eu converso com pessoas, e falo de minhas preferências. Mas isso apenas não me satisfaz…Quem é essa pessoa faz toda diferença. Saber um pouco mais sobre quem ela é independente do perfil, posição no BDSM, ou status na fila do pão é fundamental. E mais que tudo: preciso conhecê-la ao vivo e a cores (expressão de concretude que não exclui os portadores de necessidades especiais. Eles, mais que eu, carecem desse contato. Ou você acha que eles não fazem parte de tudo isso?).

Fotos em alta definição e vídeo chamadas não trazem o olho no olho, o cheiro, maneirismos e gestos só perceptíveis ao vivo. O som da voz é diferente fora do meio eletrônico. Frente a frente a tal química que parecia boa no vídeo pode não se concretizar, por exemplo. Ou pode ser mais intensa que tudo que você já imaginou.

As falácias e as máscaras são muito mais difíceis de se manter ao vivo. Sua intuição pode trabalhar com mais precisão. Os detalhes e nuances irão se revelar.

Isso é viver. Por melhores que sejam suas interações nas redes sociais, o real é insuperável.

Eu o(a) desafio a passar 24 horas sem consultar seu smartphone ou notebook ou pc, ou smart tv (percebem como isso é extenso?).

Alice queria ser rainha do país do espelho. E vive suas aventuras até conseguir. Mas acorda e volta. E nós? Será que o mundo do espelho se tornou o real e o real…?

 

“O Rei Branco manda que a luta seja suspensa e ordena que seja servido refresco a todos e pede que Alice corte o bolo. Mas toda vez que ela corta uma fatia do bolo, a fatia se junta ao bolo novamente. Para surpresa (ou não, diante de tantos acontecimentos pitorescos) de Alice, o Unicórnio lhe explica que no País do Espelho, o bolo precisa ser servido antes de ser cortado.”

Ilustração com personagem Alice acorrentada

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