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Um Instante no Tempo

Um Instante no Tempo

Uma das razões pelas quais o Kinbaku (Shibari) é apreciado por boa parte das pessoas é sua beleza plástica. Os padrões das cordas sobre o corpo, criando desenhos através de suas voltas sobre o corpo da modelo[1] são realmente belos. Mesmo os que são menos tradicionais e assimétricos, tem seu apelo visual marcante.

Ao adicionarmos a suspensão, tudo se torna ainda mais vibrante: içar um corpo muda a perspectiva tanto de quem está amarrada) como de quem está observando. Tudo parece menos estático, o movimento fica mais evidente.

Contudo, há algo que os olhos não treinados geralmente não conseguem captar: a interação entre quem amarra e quem está sendo amarrada.

Ilustração de mulher nua, de costas, amarrada com os braços cruzadosEssa dinâmica é muito particular, e nem sempre está presente numa foto, vídeo ou apresentação, por suas características peculiares, que envolvem a ação e a reação do Top e da Bottom

Há nuances como a respiração, o olhar, a tensão ou o relaxamento, a intensidade ou suavidade, a rigidez ou a flexibilidade, dentre outros, que apenas o espectador mais atento será capaz de notar, e ainda assim…

Os que se dedicam à prática do Shibari, aprendem, por um lado, a relaxar e preparar o corpo, a alongar, prepara a musculatura para que não haja percalços ao se deixar amarrar…Por outro, aprendem a planejar, rever praticar os padrões nós , transições, para que haja fluidez e cuidado ao realizar a amarração…

Mas nada, nada disso, dá conta da transformação que ocorrem entre ambos quando o significado vai além da técnica. Quando a experiência se dá em níveis além do visível, quando o amarrar aproxima e interage com o corpo sendo envolvido, quando o cuidado com a estética vai além da beleza plástica, e revela a intenção de imprimir aquele padrão como parte do que se sente e deseja.

Quando o corpo sendo amarrado revela pequenas nuances…o relaxamento, os olhos fechados…alterações na respiração, a entrega sutil e verdadeira…quando um gemido mostra prazer e não incômodo, quando a gravidade não importa por mais que chame aquele corpo de volta…por um instante, ela perdeu essa batalha

Manipular as cordas, desenhar não mais apenas com elas, mas com o corpo suspenso caminhos que fazem o mundo “normal” parecer vago e distante.

Ter a sorte, a oportunidade, e o prazer de vivenciar isso, é um privilégio raro. Neste momento o prazer vai além do sexo, mesmo que o tesão esteja lá. É fazer parte de um momento onde os corpos envolvidos transcendem a arte, e se comunicam sem palavras ou gestos. É um momento onde eles são um círculo de plenitude, mesmo que esse momento seja efêmero e fugaz.

A beleza é apenas a consequência…

 

[1] Na maioria de meus textos uso o par Top/masculino e Bottom/feminino. Não há nenhuma predileção de gênero, é apenas meu próprio referencial

Mulher supensa por cordas sobre um tatame

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