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Teoria da Relatividade

Teoria da Relatividade

Não se assuste. Por mais que eu adore física quântica, e ache que seus conceitos tornam o mundo e as coisas em que acredito mais compreensíveis, não pretendo discorrer sobre a mesma, apenas sobre um de seus elementos. Que, por inúmeras razões, me é cada vez mais caro, atualmente.

Tempo. Existem tantas maneiras pelas quais o tempo pode perpassar uma relação D/s- BDSM, que o assunto renderia um texto bastante prolongado e filosófico. Também não é o caso desta publicação que está lendo agora.

Mulher prostrada e algemada sobre piso de pedra.

Espera…

Tempo pode ter, por exemplo, diversos significados em uma “sessão”. Pode ser os grãos de areia escorrendo por uma ampulheta que determinem quando aquele prendedor de alta pressão irá deixar o bico de um seio. O último grão pode ser o suspiro de alívio do final de um castigo, mesmo quando o fluxo do sangue volta com força, trazendo um tipo diferente de dor. Mas pode ser a tristeza da masoquista mais ardorosa, que lamenta o encerramento das sensações que a envolvem. Pode ser a espera entre uma chibatada e a próxima, à espera da permissão para o orgasmo…várias situações, vários significados para cada uma.

Tempo pode contar sua história de envolvimento com o estilo de vida  BDSM. Anos podem ter se passado onde você apenas observa o que acontece pelas cartas em sua caixa postal; pelos anúncios nas revistas; pelos sites que você descobriu; pelos fóruns que você acompanhou; pelo perfil que teve coragem de criar e ainda assim, não lhe deram coragem de se envolver. Ou você pode ter participado e ter fracassado. Pode ter sido ávido em demonstrar seu recém adquirido conhecimento e cometido erros. Ou pode ter contribuído de forma ativa para que a realidade do estilo de vida se tornasse mais convidativa a quem estava iniciando o caminho que você trilhou.

Tudo isso são experiências. São pessoais, primordialmente, mas envolvem outras pessoas, envolvem sua atitude, seu caráter, sua humildade ou sua arrogância, não importa de qual lado  você esteja. A qualidade dessas experiências é pessoal. Os valores e sua maneira de se relacionar cm elas também. Mas…tempo não é sinônimo de qualidade. Tempo não é sinônimo de experiência. Tempo apenas abraça tudo isso, inexoravelmente.

Tempo marca suas conversas e conhecimento da pessoa com quem pretende dividir seu imaginário pessoal, se alegrando com as similaridades, se lamentando com os obstáculos. Às vezes a quantidade do tempo disponível o impede de encontrar quem deseja, às vezes

Mulher se equilibrando sobre os joelhoes encostada com o tronco em uma parede.

“Não se mova até que eu permita…”

é celebrado por permitir o crescimento do relacionamento. Às vezes isso acontece rapidamente, às vezes demora, desanima, frustra. A percepção do tempo é afetada por nosso estado emocional e torna essas outras experiências mais dolorosas ou mais prazerosas, mais lentas ou mais rápidas.

Tempo, contudo não é linear, pela teoria da relatividade. É intrinsecamente ligado ao espaço. Por isso às vezes as lembranças se sobrepõe à distância da amizade antiga, mas duradoura; as sensações de uma interação significativa antes do primeiro encontro geram a ansiedade e a expectativa por mais do pouco muito que se tem. Aqui, lá, longe, perto, antes e depois são marcadores que nosso cérebro limitado utiliza para lidar com o tempo. Mas nossas emoções e sentimentos são o que valorizam ou amenizam nossas experiências. Sim, pois há coisas que a distância e a percepção do tempo passando nos ajudam (ainda bem) a esquecer. Não a apagar, mas a transformar em uma parte do que nos faz quem somos.

Tempo é o espaço fugaz e feliz que encontro às cinco horas da manhã para escrever este texto, é o lamento pelas marcas de corda que somem do corpo, a felicidade pelas marcas da surra que ficam, o cuidado e a preparação e os planos para o próximo encontro, revisando o material e os detalhes, o antecipar e desejar a reação (esperada) do outro, a delícia de provocar, excitar, de levar ao limite, de negar o que se deseja para aumentar o prazer quando se concede, de se regozijar no controle que lhe é entregue, de se esbaldar no relaxamento de ser controlado.

A física quântica une tempo-espaço. Nós os vivenciamos através de experiências e emoções. Tempo-espaço-experiência-emoção ocorrem amalgamados. Nosso cérebro os separa porque exige saltos cognitivos para lidar com a simultaneidade.

Mas o fundamental aqui é a individualidade, a maneira com a qual lidamos com tudo isso cada um à sua maneira. Podemos compartilhar, podemos modificar, mas cada experiência é e sempre será única. Não melhor, não mais válida, não mais importante que a do outro. Podemos gostar das mesmas coisas, nos juntar em grupos para apreciá-las, e vivenciar a melhor parte do consensual.

Mas prezo minha liberdade, privacidade, e acima de tudo o meu (minha vivência e interpretação) tempo.

Meu pensamento anárquico me permite algum nível de socialização, mas que me representa sou eu, ou, quem tenha a capacidade de me convencer a autorizá-lo a fazê-lo. Desperdiçar meu tempo (agora acho que já ficou claro o que eu quero dizer com isso) com o que acham que é melhor pra mim, é algo que não faço

Viver cada dia como se fosse o último pode ser um exagero, mas aproveitar da melhor forma todos os momentos possíveis, e, se possível, compartilhar essa experiência com outras pessoas para quem meu tempo-espaço-experiência-emoção são significativos (e vice-versa) fazem parte do que sou.

Isso ia ficar muito esquisito num perfil…

Mulher acorrentada pelos pulsos dobrada sobre a guarda inferior da cama

 

 

 

 

 

 

 

 


Originalmente publicado em 23 de outubro de 2013

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