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Sonho de Uma Noite de Verão

Sonho de Uma Noite de Verão

A origem do Halloween (All Hallows Eve) é contada de muitas formas, em versões mais tradicionais, versões adaptadas pelo cristianismo, versões fantasiosas e versões comercias (como em quase toda data festiva que conhecemos). As abóboras, bruxas, monstros são bem divertidos, mas não tem o mesmo charme para mim. A versão que mais gosto tem a ver com magia e fantasia. Nesta versão, a noite de 31 de outubro marca o momento onde a fronteira que divide o mundo que conhecemos do mundo das Fae/Faeries (Aes Sidhe), comumente vulgarizadas pela tradução “fadas”, desaparece. Por uma noite estes seres fantásticos viriam ao nosso mundo se divertir. Apreciar o que para eles é um mundo estranho, o dos mortais, o dos efêmeros, mas, nem por isso, ou talvez por isso, menos fascinante para eles.

Ilustração com uma mulher loira em um a floresta com uma bruma suave ao redor

Aes Sidhe

O momento em que esse véu é levantado me faz pensar em diversas analogias. Bem, na verdade me faz querer ir para o lado das Fae, mas até hoje não achei a passagem. Mas faço aqui uma comparação que me veio à mente ao pensar nesta data: não transitamos nós entre dois mundos o tempo todo ao assumirmos nossos lados BDSM?

Não posso falar por mais ninguém, por isso compartilho o que penso baseado em minha experiência. Desde o início, quando vislumbramos pela primeira vez que existem outras pessoas com os mesmos desejos, fantasias, sentimentos relacionados ao tema, é como se adentrássemos o nosso “mundo” Fae. É um mundo diferente, um pouco estranho mas não tão estranho como quando nos sentíamos alienígenas, solitários ou loucos por ter idéias tão diferentes do comum, do “baunilha”.

Ao nos identificarmos e vermos que fazemos parte deste outro mundo, os alienígenas passam a ser os outros, os que não vivem a intensidade, a diferença, a variedade de personagens e nuances que traçamos em nossas vivências únicas, mas semelhantes, em “nosso” novo universo. Os outros passam a ser os mundanos, e nós os seres especiais. Se não prestarmos atenção, passamos a tratá-los como os estranhos.

ilustração de garota amarrada no estilo hogtie, com uma ball gaga ao lado de um crânio com um vela acesa no topo

Decoração de Halloween

Mundanamente então, retorno a um tema que constitui um ponto central em minha visão de mundo: complementaridade. Isoladamente, não creio que nenhum dos mundos nos define, até porque nossa personalidade não pode ser unicamente definida por nossos desejos e fantasias. Não há como apagarmos nenhum dos dois lados e nos sentirmos inteiros, não há como viver unicamente em um dos mundos e não sentirmos falta do outro. A existência de um mundo sustenta e define o outro por oposição, sem a qual o significado de cada um se perde.

Minha bisavó costumava dizer que tudo em excesso faz mal. Eu vou mais além, e digo que tudo igual, tudo do mesmo, o tempo todo, nos exaure. Não no sentido do prazer, mas no sentido do desgaste. O paraíso na visão angelical sempre me pareceu a idéia mais próxima possível da concretização do tédio.

Precisamos dessa variedade. Nós nos inquietamos com o comum. Se nossas personas BDSM forem só o que somos, ser comum se tornará atraente e misterioso. E aguardaremos a oportunidade de ultrapassar o véu e voltar/ir para esse lado comum tão fascinante.

Somos. Muitos facetas temos[1]. É essa diversidade, essa complexidade que nos constitui. Uma das minhas lições mais difíceis foi abraçar meus lados triste, raivoso, agressivo, intolerante e, no final, gostar de mim da mesma forma. Saber que não sou menos que ninguém por ser tudo isso. Ora, ser quem sou. Minha individualidade, minhas fantasias. As compartilho, contudo, não as imponho

Temos esse poder. Vivemos nosso Halloween quando queremos. Somos mais poderoso que os Aes Sidhe, nesse sentido. Fica aqui meu desejo de que possamos exercer esse poder com respeito, com harmonia, sem perseguições, sem violência contra nenhum dos lados. Mas que não se tente transformar um mundo em outro, ou qualificar um como melhor. No que se rompe o equilíbrio, caminha-se mais rápido para a dissipação e a entropia nos envolverá.

Festejemos então. Quem sabe não encontramos com alguém do povo das Fae em nossas transições, e jogamos uma agradável conversa fora, falando sobre bruxas, abóboras e monstros…

Mulher ruiva caracterizada de bruxa

Kinky Witch


[1] Yoda style

Publicado originalmente em 31 de outubro de 2013

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