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Prestidigitação

Prestidigitação

O mundo online nos trouxe uma série de vantagens. E, mais recentemente, o avanço das redes sociais multiplicado pelo aumento das opções de comunicação por mensagens instantâneas, pode colocar as pessoas em contato mais rapidamente, sendo até utilizadas como métodos de comunicação em ambientes de trabalho.

Por outro lado, criou o vício da “conectividade 24×7” …Um novo fetiche, talvez? Veja quanto tempo você consegue ficar longe de mensageiros online e redes sociais e você terá uma medida do quanto está nisso.

Também é notável a facilidade de se acessar o “meio” BDSM online (que, algumas vezes, até tem alguma base no real).

Cartoon com um T-rex digitando em um dispositivo

Tempos Modernos…

No tempo em que os dinossauros andavam na terra isso só era vagamente possível através de anúncios em revistas masculinas, na seção de cartas, onde, pasme, se usava o correio como meio de comunicação. Hoje, digite umas duas palavras no Google e você é levado diretamente a um mundo de informação

Mas, como toda boa pesquisa, todos filtram os resultados, verificam as fontes…não é? Não? Clicam no primeiro resultado? Ah, Ok…desculpem. mania de Tiranossauro.

Mas vou deixar de tergiversar e vou direto ao ponto deste texto: Aqueles que estão chegando, se entregam à ilusão da velocidade inconsequente de um relacionamento instantâneo, realizando fantasias e desejos ao assumir protocolos e regras que estão no primeiro textão que lêem? Ou buscam, filtram, questionam, e descobrem onde estão pisando antes de dar o primeiro passo?

O que eu observo, infelizmente, é o reflexo de um mundo de receitas de bolo, de manobras de marketing que colocam produtos na prateleira, coloridos e atraentes, mas, muitas vezes, é só o que possuem. Importado ao “meio” BDSM online, temos desde “receitas para esquentar sua relação” até códigos rígidos de conduta desconectados de qualquer base real. É o “efeito Chicó”: “Não sei, só sei que é assim”.

No meio disso tudo, temos pessoas sérias, que se preocupam em informar, porque já passaram pela aridez da ausência de informação, a buscaram e a oferecem, sabendo que é importante.

Por que me importo com isso? Simples. Eu sei o que é ter um desejo que não é formalmente aceito como normal. Eu sei o que é pensar que se está ficando doido. Eu sei o que é quere viver algo que, com o tempo se transforma em parte de quem você é, e que se inibido ou reprimido, me deixa, aí sim, doente.

Esse “saber” se deu à custa de estudar, aprender, pesquisar, e principalmente, conversar com outras pessoas que realmente vivem e realizam suas fantasias. Pessoas que entendem que se atrair por fotos de marcas de chicote não farão de você um masoquista, se não entender que existem técnicas para o uso desse chicote, e que existem limites que você tem que conhecer em seu corpo, e que cada corpo funciona de uma forma diferente. Você pode até ser masoquista, e seu corpo ter limites que não poderão ser ultrapassados, por mais que deseje.

Você pode querer amarrar pessoas com cordas, mas precisas saber sobre os caminhos dos nervos, saber sobre articulações, sobre circulação sanguínea. Tem que conhecer o corpo de quem vai amarrar, assim como, mais que você, quem vai ser amarrada tem que conhecer seu próprio corpo.

Você pode achar lindo ter um desenho feito com agulhas em suas costas, mas qual a sua tolerância? Você tem algum tipo de alergia? A pessoa que está utilizando as agulhas em você higienizou as mesmas? O ambiente onde está fazendo isso é saudável?

E antes de tudo isso…você conhece bem a pessoa a quem se entrega, ou a pessoa que está se entregando a você? Entende a responsabilidade que é se deixar controlar por outra pessoa, ou ter outra pessoa sob seu controle? Compreende que isso é muito mais do que escolher uma etiqueta ou time e partir para a ação?

O que mais há em profusão são pessoas oportunistas que se apegam a tempo de experiência, títulos, códigos[1], e os impõe sem diálogo, sem contexto, sem escrúpulos, por vezes. Entendam: isso não é diferente do que existe “fora do meio BDSM”.  As pessoas são as mesmas, o caráter é o mesmo.  Mas “dentro do meio BDSM”, é como se eles se arvorassem numa permissão concedida pelo divino para fazer o que bem entendem.

Boneca moderna tamanho real com seios seguros por mãoes masculinas

Realidade ou ilusão?

É como entrar em uma feira ou um shopping que tem tudo que você mais deseja sobre determinado tema. Há stands lindíssimos e caros, outros rústicos e estranhos, outros simpáticos e do jeito que você esperava. Qual é o melhor? Você vai comprar no primeiro lugar, por afinidade, por simpatia? Pela conversa do vendedor? Ou vai pesquisar, comparar, usar sua lábia de cliente e barganhar até que ambos cheguem a um acordo? Essa analogia é o máximo que me permito aproximar do termo comum “negociar” do qual eu não gosto.

Pense. Questione. Estude. Pesquise. Converse. Use as armas da ilusão a seu favor e atravesse o véu que o(a) levará a realidade.

A realidade, sempre, sempre será melhor do que o sonho.

[1] Não sou contra títulos, códigos e muito menos tempo de experiência. Sou contra o uso dos mesmos como um distintivo de qualidade, fora de contexto e desconectados de um relacionamento construído através do conhecimento mútuo.

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