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Qual mundo é real, o “baunilha” ou o BDSM? Quando fazemos a passagem através do véu entre esses dois mundos, assumindo nossos desejos e fantasias diferentes do esperado, passamos por uma fase de deslumbramento (por vezes temperada com um pouco de hesitação) até que começamos a considerar ambos os espaços/mundos como nossos.

Poder expressar, falar e especialmente vivenciar o que antes era fantasia como realidade nos atinge emocionalmente, alterando internamente nossa cadeia de valores. Este é o ponto onde uma outra dimensão se apresenta, sendo seu portal uma membrana tênue e sem resistência. A dimensão do preconceito.

Nessa dimensão é fácil inverter, distorcer, criticar porque temos o reforço de não estarmos sós como achávamos. Do lado da dimensão do preconceito fica fácil julgar e diminuir quem é baunilha. Aquelas pessoas que não sentem as coisas intensamente como eu sinto, que antes me chamavam de louco, pervertido, tarado. Agora, eu sou fetichista, kinky, dominador, submissa, sádico, masoquista…você é só baunilha

ice cream dripping

sabor…

Nesse momento me pergunto por que “só”? É como se todo relacionamento não BDSM – com sexo ou não –  fosse considerado desprezível. Como se a intensidade das pessoas não pudesse ter nuances, não tivesse valor, fosse de má qualidade. Como se os sabores exóticos fossem proibidos, como se essas pessoas jamais pudessem provar cranberry ou macadâmia ou [preencha aqui com seu sabor exótico preferido] e fossem condenadas ao baunilha, numa dieta enjoativa infernal.

A parte mais incrível dessa história não é apenas a facilidade de criticar os outros através do preconceito e com a ajuda do reforço de boa parte dos “kinksters”. O que me salta aos olhos é que parece que a dimensão do preconceito penetra as pessoas de tal forma a que ele passa existir dentro do próprio ambiente BDSM.

Nesse momento temos quem é [preencha aqui com seu papel no cenário fetichista – Dominador, submissa, sádico, etc.] “de verdade”. Como se isso fosse um carimbo de qualidade. Como se esse carimbo tivesse critérios de validade relacionados ao tempo, leitura, prática. Passamos a viver uma realidade onde “você não é submissa porque não faz o que eu quero” ou “você não é Dominador porque não controla sua sub desta ou daquela maneira”. E de novo, quem não adere ao que aparentemente é o consenso é rejeitado, excluído.

Aí cabe a decisão: “Ou eu acredito que eu posso ser diferente e vivo as coisas à minha maneira, ou eu vivo igual a todo mundo, faço o que todo mundo faz, para não ser isolado.”

Mas…espere um momento…não era exatamente isso que eu sentia quando era só baunilha e minhas fantasias viviam escondidas em minha mente? Não era essa mesma pergunta que eu fazia antes de atravessar o véu e ver que existiam mais pessoas que pensavam como eu?

No mundo dos relacionamentos baunilha, existem as pessoas que buscam seus príncipes e princesas, existem as que só querem se divertir, as que só querem abusar, as que não se valorizam, as que buscam seus pares pelas mais variadas razões, as que vivem tipos especiais de relacionamento.

No mundo BDSM, existem as pessoas que buscam seus príncipes e princesas, existem as que só querem se divertir, as que só querem abusar, as que não se valorizam, as que buscam seus pares pelas mais variadas razões, as que vivem tipos especiais de relacionamento.

Assim como existe o preconceito e a visão unilateral de que só existe uma maneira de fazer as coisas, e que essa maneira (que é a minha) é a certa.  O que é diferente é errado. Céu e inferno, bem ou mal preto ou branco[1]. Em ambos os mundos.

A insegurança é tanta que parece ser mais importante rotular o que é certo e errado do que viver bons momentos. Acabamos por perder o prazer de simplesmente experienciar junto com o outro a fantasia compartilhada que nos realiza. O compartilhamento dessa experiência é que passa a ser algo que demanda cuidado. Porque a censura e o preconceito podem querer dizer que “isso não é BDSM”.

Viva, converse. Não se desgaste em discussões sem fim. Não viva para ter razão, tenha razão pra viver. Nem sempre o seu jeito será bem visto. Agradar a todos é uma das maiores ilusões que existem. Ilusões existem?

Misture sabores. Baunilha não é tão ruim assim se usado na medida certa. No entanto alguns sabores exóticos simplesmente destroem qualquer paladar se usados em exagero. Não faça por ninguém antes de fazer por si mesmo. Seja íntegro com você mesmo. Não espere pelo super-herói. Seja o seu próprio
2013 - 1

[1] E quando se fala em cinza, agora existe uma praga literária que tornou essa cor inutilizável como expressão de dualidade.


Originalmente publicado em 24 de Novembro de 2013

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