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Onde Está Wally?

Onde Está Wally?

Sabe quando você já convive há algum tempo com uma pessoa, mas nem por isso deixou de prestar atenção? Quando você capta um olhar para algo, uma palavra, um comentário que você sabe que é importante para ela, e transforma em alguma coisa que a vai surpreender e provocar um sorriso que é a melhor recompensa que você pode ter?

Já imaginaram isso numa relação BDSM? Parece bom né? Mas eu acho que isso depende de muita coisa pra acontecer. E tem tudo a ver com comunicação, diálogo, sinceridade, conhecimento, interação.

Se você leitor, parte do princípio de que “quem tem que agradar é a sub, por que eu sou Dominador” ou “como submissa, quem tem que agradar sou eu, não meu Senhor”, por favor, pare de ler. Esse texto não é pra você. Aliás…o que você tá fazendo aqui, se perdeu?

Voltando… eu acho que tudo se inicia no momento em que as duas partes começam a conversar. Estou partindo do princípio de que são duas pessoas conscientes, que tem suas visões pessoais de BDSM, e que se interessaram uma pela outra seja lá por qual razão. Quando o diálogo se estabelece, e você percebe que pode ser dessa vez, uma luz verde se acende, alguma rede neural se ativa, e a viagem ao conhecimento mútuo se inicia.

Mulher prostrada segurando uma corda aos pés de um homem que está sentado em um sofá.

Só uma foto, ou muito mais do que aparenta?

Primeiro encontro, o avatar ganha um rosto de verdade, as palavras tem voz, acompanhadas de gestos, olhares…é olhares são o máximo, pra mim. Enfim, a interação cresce tudo deu certo. Mais conversas, mais diálogo…

Eu costumo usar uma expressão tirada de um jogo visual de alguns livros um tanto antigos, “Where is Waldo?”  que aqui no Brasil virou “Onde está Wally?”. Onde, em uma quantidade absurda de imagens, geralmente envolvendo multidões, você tinha que encontrar o personagem que dá nome à série. Meu uso é baseado em um monte de experiências onde tudo ia bem e de repente a magia se quebrava e máscaras caiam ou incompatibilidades apareciam, enfim Wally dava o ar de sua graça na pior hora do mundo. Simplificando, “quando a esmola é muita o santo desconfia”.

Enfim, com “Onde está Wally?” no fundo da mente a gente avança até a primeira sessão e….dá tudo certo! Talvez um ajuste ou outro, mas caramba, funcionou. Agora é evoluir e usufruir.

E é a partir deste ponto que a jornada do conhecimento mútuo e do autoconhecimento se iniciam. Porque você cresce com o outro. Quando alguém se entrega a você, e você assume a responsabilidade e o controle por essa pessoa, você começa a conhecer como ela funciona, os pequenos detalhes, o que a excita, o que a apavora, o que a ilumina e o que a aborrece. Quando alguém o elege como Dono, esse alguém observa suas vontades, como elas se manifestam, os pequenos detalhes, o que o excita, o que o apavora, o que aborrece, o que o ilumina…ué…estou me repetindo?

Não. É exatamente por que esses detalhes são observados que a rotina se afasta. É por saber do outro, por prestar atenção, que você pode ouvir um “sim, meu Dono” que soe como a primeira vez, ou que você pode dizer simplesmente “venha cá” e essas palavras terem peso, valor e significado além do óbvio.

É exatamente porque o outro não é parte do cenário que os detalhes sobressaem. É porque a pessoa aos pés de quem você se prostra é mais que um player de ordens estereotipadas. É porque a pessoa em quem você está deixando marcas de corda ou de chicote, que arfa de dor e prazer a sua frente é mais que um saco de pancada.

Quando este tipo de harmonia acontece, é como uma jam session[1]. O consentimento é

Mulher com as costas nuas com uma pauta musical tatuada nas costas

Harmonia

apreendido, a ousadia é aceita, o prazer é intensificado. Dois nunca são um, mas a complementaridade transforma, enriquece, cativa.

E o sorriso brota espontâneo, caloroso. A sensação de satisfação é por dar, por receber, por interagir. Por simplesmente estar ali. Por poder ser, juntos.


[1] Quando músicos se juntam para tocar sem nenhum tipo de ensaio prévio, mas que, seja por proficiência ou por conhecimento do trabalho mútuo, conseguem proporcionar um resultado harmônico onde há destaque para o solo e para o conjunto, resultando em peças raras e incríveis.


Publicado originalmente em 27 de outubro de 2013

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