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Lugar de Bottom

Lugar de Bottom

Há 8 anos atrás eu escrevi um texto chamado “Lugar de Sub”, e o republiquei em 2016. Por mais que ele esteja datado em termos de meu modo de pensar e em alguns conceitos, ele, infelizmente, é muito atual.

Resolvi revisitar o assunto com meu olhar atualizado e ver o que acontece… por favor, sigam-me os bons! (ou os que gostam do que eu escrevo…)

Para começar, vamos sumir com essa idéia de sub, porque ela reforça muito a visão AINDA predominante de que BDSM é só D/s… isso dá sono, mas ainda recebo a pergunta “você é Dom?” quando inicio uma conversa…então, falemos de bottom.

E não é que a farsa teatral continua? Olha só quantas falácias temos por aqui:
– Sub verdadeira

– As regras são claras e únicas

– Aftercare é invenção moderna

– Dom não é enfermeiro

– Chorar faz bem, é normal

Eu poderia continuar, mas a ânsia de vômito já me acomete. Todas as falas acima, são ridículas, preconceituosas, pejorativas e, por que não, nojentas.

Todas são baseadas no princípio de que existe uma única forma de se viver o BDSM. O mais curioso é que essa “única” se divide em algumas variações pessoais sobre o mesmo tema, com seus vários sabores. Todos os tóxicos, unilaterais, arrogantes e rasos. Inspirados no “Sagrado Manual do BDSM” (que, não sei se já mencionei em algum texto, não existe.).

BDSM é uma subcultura que estabeleceu padrões, um “framework”[1] cujo maior objetivo sempre foi diferenciar os lunáticos (ainda se usa esse termo? Eu gosto, tem sabor de coisa antiga), abusadores, criminosos, e diversos transtornos psíquicos [insira aqui os seus transtornos mentais favoritos – leitura interativa].

Além disso, o uso indiscriminado dos termos Dom e sub só demonstra a ignorância sobre os diversos papéis que um Top ou uma Bottom podem assumir, limitando e ignorando ou excluindo outros pares de relacionamento. (“Tamer, brat? Que absurdo, brat é uma falsa sub, tamer é um dom que não sabe se comportar” diriam os(as) nossos(as) amigos(as) ali em cima.)

“Verdadeira(o)” presume uma única perspectiva, não é o caso. Assim como “única(o)”. Aftercare tem a ver com respeito, cuidado, atenção. Se não estão presentes, não dá nem para começar a dizer por onde um relacionamento assim vai naufragar. Um Top que não cuida não merece assumir esse papel. Chorar faz bem, mas de que choro se está falando? Medo, desespero não são choros de “fazer bem”.

Tudo isso para voltar a falar do “Lugar de Bottom”.

Ao contrário do que toda aquela baboseira acima possa sugerir, ou mesmo as que estavam no texto anterior (link tá lá no começo no nome do texto), vou fazer uma revelação: lugar de Bottom é onde a(o) bottom quiser.

Essa definição parte do quanto, de que forma, em que situação, vivendo qual desejo, em qual contexto o(a) bottom quer se inserir. A partir daí, ao escolher com quem compartilhar tudo isso, o lugar será definido, segundo as regras que forem escolhidas, sejam elas as mais sutis ou as mais extremas. Escolhas, mas em consenso, ou acordo. O que se pode flexibilizar e o que é imprescindível.

Johnny Bravo nu segurando um rebenque com Doctor babe na coleira, de 4,  amordaçada e amarrada nos pulksos e tornozelos com fitas vermelhas

Cuidado ao escolher seu Top…

Mas cuidado: antes do Bottom, antes do Top, existem as pessoas que fizeram essas escolhas de acordo com seus próprios contextos individuais. Não existe TOP/Bottom, BDSM, consenso, D/s, sem as pessoas. Carne osso, sangue, sentimentos, tristezas alegrias, intensidades, suavidades. Isso obviamente, falando de pessoas, e não de “cerumanos” que escolhem letrinhas, modinhas, trends, e se atiram vorazmente uns contra os outros. Isso é conversa pra outros escritos…

Eu já falei tudo isso antes, de outras maneiras. Me sinto cansado, desanimado, impotente, até. Mas, como uma grande amiga me disse “repetir é importante”. Ok, lá vou eu de novo…

Meu ponto de vista mais sintético sobre tudo isso, é que, se você não enxerga pessoas, e apenas idealiza objetos para satisfação do seu prazer, não importa se você escolhe ser Top, Bottom, playboy, mina da hora…você desperdiçará sua vida. Mas, escolhas, consequências, bla, bla, bla…

Mesmo que eu escolha pessoas posso quebrar minha cara…quem nunca? Mas a experiência dessa escolha me permite uma realidade concreta e valiosa, seja ela prazerosa ou infeliz (achou que eu ia escrever dolorosa né 😜).

Faça do “Lugar de Bottom” um lugar bom de se estar e de se conviver. Viva e tenha prazer em viver algo que não é fácil de se conseguir. As letrinhas ajudam, mas não te moldam. Não se perca de si mesmo(a) e tenha uma boa viagem.

[1] Framework é um termo inglês que, em sua tradução direta, significa estrutura. De maneira geral, essa estrutura é feita para resolver um problema específico

Casal no chão, abraçado, com cordas e um bambu soltos e próximos

Aftercare É FUNDAMENTAL

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