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Juntos e Shallow Now

Juntos e Shallow Now

A percepção de Tops como vilões- e aqui estou me referindo especificamente ao sexo masculino, embora a situação possa se aplicar a outros gêneros – tem sido uma constante.

Também, não é para menos: temos diversos modelos de Top em voga no mercado atualmente, que ajudam a disseminar essa idéia.

Por exemplo, o Top Colecionador, cujo fetiche me parece ser muito mais exibicionismo que qualquer outra opção da parte de cima da verticalidade. O importante é ter muitas bottoms, quanto mais melhor, como se isso fosse um índice de credibilidade e popularidade. Como administra com qualidade a quantidade me parece ser apenas um detalhe insignificante

Home de terno preto

Modelo muito apreciado

Temos também o Top Fóssil, que já praticava o BDSM quando os dinossauros andavam na terra, cuja palavra é lei, tem uma edição  de bolso autografada do Manual Sagrado do BDSM (que não existe) ao qual recorre para ditar o que é certo e errado e a consensualidade que literalmente se foda.

Podemos citar também o Top Mentalista, que com seus poderes mágicos de dominação psicológica e truques secretos de hipnotismo consegue dominar qualquer bottom de forma completa e avassaladora. Incluindo a obtenção de acesso a todas as contas e senhas, incluindo cartões de débito e crédito. Tem o poder de fazer a bottom se sentir culpada por não corresponder a tamanha atenção e cuidado. Deveria ter problemas com a polícia, mas o dano é grande, e raras vezes isso acontece. Pesquisem sobre gaslighting e terão uma compreensão melhor deste modelo.

Dados esses e outros modelos, fica fácil entender a associação Top=vilão, aproveitador etc.

Contudo isto tem gerado uma reação no mundo bottom que, a princípio me pareceu curiosa, mas que, no fundo me entristece. Ao invés de se informarem (e não faltam fontes para que isso aconteça) não só continuam caindo nas ciladas acima, como criam critérios de escolha que soam como garantia.

Exemplo muito em voga: Muitas bottoms se denominam little, babies, meninas etc. e filtram suas buscas por um Dom Daddy. A solução de todos problemas. Esse modelo deve ser fiel, amoroso, apaixonado, e terá o direito de educar a bottom, desde que essa disciplina seja feita com muito amor.

Outras, já com conhecimento, buscam o “verdadeiro” Dominador …eh… parêntesis. Tenho utilizado os termos Top e Bottom neste texto, mas a grande maioria de quem falo se autodenominam Doms e Subs, como se D/s fosse a única forma de expressão do BDSM.  Vou continuar usando Top e Bottom, já que não compactuo com este equívoco.

Ilustração de mulher ruiva com a blusa branca e saia de couro.

Vamos ao checklist…

Como eu ia dizendo, muitas buscam o “Top verdadeiro”.  Sabem qual é esse modelo? Aquele que corresponde aos ideias de troca de poder imaginados pela bottom, que incluem desde o tempo certo para responder a mensagem enviada, como a adequação a certos padrões que só o “verdadeiro” Top sabe incorporar.

É sufocante. A necessidade dos padrões é algo cultural, mas parece quase genética. Entender, conversar, trocar, aprender se divertir, e conhecer alguém para possivelmente iniciar um relacionamento BDSM são palavras que caem no vazio.

Parece que é mais seguro trocar figurinhas, que contém as preferências escolhidas em uma lista ou teste, e comparar as semelhanças. Se der certo e ainda houver o encaixe de modelos, já é, partiu.

Os modelos que eu descrevi se retroalimentam, e geram , na verdade um grande vazio, pois, quando as falácias são percebidas, muita gente já se machucou, muita gente já decidiu que “isso não é pra mim”, e a sensação de “juntos e shallow now” se espalha .

Apesar disso tudo, sou teimoso e ainda acredito que umas poucas pessoas que ainda se valorizam o suficiente para ter um mínimo de discernimento, podem transformar um pouco esse cenário, Não é um sonho impossível, é uma máxima que sigo há muito tempo e que tem se comprovado eficaz: Sem a escuridão não há luz, por isso, mesmo quando a escuridão é avassaladora, uma pequena luz afasta a escuridão. Muitas pequenas luzes podem ser capazes de iluminar um caminho.

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