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Jornada

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Mulher sobre tatami, segurando buque de rosas às costasCuidar é um verbo cujo significado na verdade são muitos. Recebi a sugestão de falar desse tema e achei interessante colocá-lo sob a ótica  BDSM, uma vez que o olhar do senso comum geralmente associa o universo  BDSM à violência e doença mental.

A receita básica para qualquer relacionamento, em meu ponto de vista, é o respeito. E assim como respeitar a si mesmo é o melhor caminho para respeitar a(s) pessoa(s) com quem você vai se relacionar, considero o básico do respeito o cuidar de si mesmo.

Cuidar de si mesmo é um projeto complexo que deve ser revisado constantemente, diariamente, porque nós mudamos todo o tempo. Esse cuidado obviamente passa pelo físico, mas como este está profundamente ligado ao emocional/mental, acho que um influencia o outro, e a busca do equilíbrio entre ambos é uma missão pra toda vida.

E dentre a miríade de aspectos do autocuidado, acho que o mais central, fundamental e importante é a autoestima, ou, como você se vê e se aceita. Aqui, temos a nós mesmos como nêmesis:  somos solapados desde crianças a visões dicotômicas de bem e mal, certo e errado, aceitável ou inaceitável.

O maior desafio que superei até hoje foi o de reconhecer meus defeitos (segundo minha perspectiva de vida, que fique bem claro) e corrigir os que eram passíveis dessa ação e simplesmente aceitar os que fazem parte da minha essência imperfeita.

Eu gosto de mim. Eu me aceito. Não sou melhor que ninguém por que não há termos de comparação entre individualidades, mas não me submeto a padrões de definição de comportamento que não estejam afinados com meus princípios. Isto não é   ”faço o que quero”, isso é “faço meu melhor segundo eu acredito, admitindo que há maneiras diferentes de ser e de agir”.

A partir desse ponto cuidar de mim é mais simples, o que não quer dizer que seja mais fácil. Por vezes, dependendo das circunstâncias, é um desafio diário. Mas se eu tenho a mim mesmo como um bom companheiro, com meus erros e problemas, mas com minhas qualidades e méritos, eu tenho um bom ponto de partida.

E eis que (partindo do princípio de que eu “estou bem cuidado”) parto para cuidar do outro. Outro projeto difícil, se o outro de que falamos não tiver cuidado de si mesmo.

Primeiro porque, por melhor e mais empático que eu possa ser o outro precisa querer ser cuidado. E para chegar nesse ponto ele tem que admitir que não está se cuidando. São dois passo gigantes pra pessoas que provavelmente possuem baixa autoestima.

E tem mais: não é obrigatório que tomemos para nós esta tarefa. Em muitas situações, o outro ter o discernimento para criar seu próprio projeto de auto cuidado é o melhor que pode acontecer. Mas, ei…apoiar alguém que elejamos como uma pessoa que valha a pena, faz bem. Desde que não nos percamos no processo, e mantenhamos nossa individualidade e cuidado.

Homem segurando mulher pelo pescoçoMas voltarei ao caso hipotético onde, eu, que cuido de mim encontro a ela, que cuida de si mesma.  Em nossas conversas de conhecimento um do outro, navegamos para a dimensão BDSM, trocamos idéias, experiências, opiniões, fazemos um “test-drive” e decidimos criar uma ligação Top/bottom. Como fica o cuidado?

Não há uma única resposta exatamente porque pessoas são únicas. Mas o conceito geral que eu tenho de cuidado implica em prover tanto “cuidar” dessa outra pessoa quanto me seja concedido. Aqui, acho importante frisar: Cuidado neste contexto não é paparico e tratamento VIP (embora isso possa acontecer). Cuidar no contexto BDSM para mim é prover o que a outra deseja na medida que me entrega a responsabilidade de cuidar dela, ou cuidar na medida do que me é demandado pela pessoa a quem me entreguei e que alimente o relacionamento de forma a fazê-lo crescer e prosperar.

Cuidar não é verificar a todo instante se eu bati forte demais, é verificar se estou batendo com a força suficiente que definimos como satisfatória. Cuidar não é ficar de joelhos prostrada aguardando ordens, é saber se colocar na postura que faça sentido a atender o que o outro deseja.

Cuidar é se importar com o relacionamento e com o outro sem deixar de cuidar de si mesmo no processo. O desequilíbrio aparente e natural em uma relação Top/bottom não pode ser confundido com jogar a responsabilidade de cuidar de si mesmo na conta do outro, e muito menos exigir que o outro atenda a todas as minhas vontades muito além da entrega, comprometendo todas as partes de sua vida. Se entregar não é se tornar vítima de estelionato por submissão.  Se entregar é manter sua personalidade, mesmo que na posição mais servil que se imaginar.

Mulher amarrada e curvada sobre uma mesa com a saia levantadaOs papéis na relação Top/bottom podem ser vistos como uma troca de cuidados. O cuidado individual de cada um para que você possa estar no lugar de ser o que o outro deseja sem perder sua integridade, sem abrir mão de sua personalidade. E o cuidado mútuo onde exercendo cada um o seu papel, o direito de exigir e o direito de se entregar sejam cuidados pela integridade e pelo respeito que um oferecerá ao outro.

Cuidar não é carinho. É saber que tipo de carinho e a hora de oferecer o mesmo dentro do contexto. Cuidar é se importar com o outro e estar presente, mas nunca se perder de si mesmo, ou o cuidado pode virar um buraco negro, cuja gravidade ira atrair inexoravelmente os envolvidos para baixo, para o fundo. Para um lugar difícil de voltar.

Para os que não vão e para os que ficam, o cuidado é uma parte envolvente e compensadora de uma jornada prazerosa.


Publicado originalmente em 6 de abril de 2014

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