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História do Kinbaku – Parte 2

História do Kinbaku – Parte 2

O trecho inicial desta parte foi traduzido e adaptado livremente de D/s-arts


Cordas não eram apenas uma forma de conter os prisioneiros, elas eram usadas também em técnicas de tortura cruel a fim de obter confissões A tortura (como vimos na parte 1) era utilizada tanto pelos oficiais do Shogunato Tokugawa como pelos cidadãos no período Edo (1603-1867). Algumas formas dessas técnicas de tortura são ilustradas a seguir:

Tortura japonesa da água com chibatadas

Mutchiuchi e Mizuzeme

Mutchiuchi: Conhecido como “flogging” ou simplesmente açoitamento. Na ilustração há ainda a aplicação de Mizuzeme (tortura utilizando água ou imersão). Um pedaço de tecido permeável é colocado sobre o rosto do prisioneiro, e então água em quantidade é despejada sobre ele, causando sensação de afogamento. Mutchiuchi em si era a menos dolorosa das técnicas, por  mais incrível que possa parecer.

Ishidaki. “Pressão”, numa tradução livre. O prisioneiro amarrado era colocado ajoelhado sobre uma superfície irregular de madeira formada por um conjunto de vértices. Após isto, pedras pesadas eram colocadas sobre suas coxas ou, pior, ele era curvado para frente e as pedras eram colocadas sobre suas costas.

Punição Ishidaki

Ishidaki (coxas)

Punição Ishidaki

Ishidaki (costas)

Prisioneira amarrada e dobrada sobre si mesma

Ebizeme ou Agura

Ebizeme.  Se após as duas práticas anteriores uma confissão não fosse obtida, os prisioneiros eram amarrados no que era chamada “posição do camarão”. Eles eram amarrados com as pernas cruzadas na frente. As mãos presas às costas no clássico Takate Kote (uma espécie de caixa envolvendo ombros, braços e mãos). A pessoa era então curvada para frente e seu torso preso a suas pernas.  Depois de algumas horas nessa posição, o corpo inteiro da pessoa era tomado por dores lancinantes… O corpo dos prisioneiros mudava de cor: primeiro vermelho, depois púrpura, violeta até um azul claro. Quando o azul era atingido, a tortura terminava, uma vez que o interesse não era matar o prisioneiro, apenas obter a confissão desejada. Contudo, a técnica poderia ser repetida várias vezes ao dia, caso necessário, ou mesmo por vários dias.

No kinbaku moderno, essa técnica foi adaptada, ganhando o nome de “agura” (posição sentada com as pernas cruzadas).

Mulheres amarradas na posição Agura

Capa do Livro “Shibari – The art of Japanese Bondage”

 

 

 

 

 

 

 

 

Tsurizeme ou Tsurushi-zeme.  A forma final de tortura era uma suspensão feita pelas costas. Os braços e pulsos eram amarrados juntos e puxados para cima, suspendendo o prisioneiro do solo, forçando-o a olhar para baixo numa posição extremamente desconfortável e muito dolorosa.

 

Tsurizeme 1

Tsurizeme

Tsurizeme 2

Tsurizeme 2

Com as mudanças culturais e históricas no Japão e o Hojojutsu saindo da cena principal, vamos encontrar na arte popular a expressão do uso das cordas para outros fins.

Ukyo-e

Existe um gênero artístico que explodiu no período (1615-1868) conhecido como Ukiyo-e, produzido com uma técnica de impressão em blocos de madeira (serigrafia). Originalmente, este era um tipo de arte popular, das classes inferiores. A palavra em si se refere à “vida simples ou humilde”. Mais tarde passou a significar algo como “uma vida transitória de prazer”. Foi esta forma de arte que deu origem às primeiras imagens eróticas Kinbaku, ao estilo japonês de tatuagens e ao shunga.

Shunga

Dentro do Ukiyo-e, surgiram imagens de arte explicitamente sexual no Japão, geralmente conhecidas como shunga. Imagens de atos tanto hetero como homossexuais mostrando genitálias proeminentes foram popularizadas Estes atos sexuais explícitos incluíam masturbação, orgias, etc.

Gravura em madeira ilustrando coradas e erotismo

A bruxa do pântano Adachi

 

No universo desta  da arte que utilizava os bloco de madeira ou “mundo flutuante” foi onde as primeiras imagens da Corda Japonesa afloraram como uma forma erótica, conhecida como Kinbaku-bi. Uma das primeiras (e perturbadoras) imagens criada pelo famoso artista Yoshitoshi (Setembro de 1885) intitulada “A casa solitária no pântano Adachi na Província de Michinoku” (ah,  os sons das palavras japonesas…tsk,tsk…)

Esta Imagem é baseada na lenda da “bruxa do pântano Adachi”, que bebia o sangue de bebês não nascidos. Nesta imagem, uma mulher grávida é suspensa pelos tornozelos e amordaçada, com a velha bruxa sentada, afiando a lâmina (argh!)

 

Ito Seiu (1882-1961)

Um dos primeiros artistas e mestres Kinbaku, Ito Seiu replicou esta imagem utilizando

sua própria esposa grávida (!!!!) em imagens fotográficas no início do século 20.

No final de 1900’s quando a arte Samurai do Hojojutsu foi considerada ilegal na restauração Meiji, mais e mais imagens de cordas para propósitos eróticos apareceram.

Ito tornou-se conhecido como “seme-e” “artista da tortura e como “Pai do Moderno Kinbaku”.

Reprodução real da Bruxa do pântano de Adachi feita por Ito Seiu com sua própria esposa grávida.

Reprodução real da Bruxa do pântano de Adachi feita por Ito Seiu com sua própria esposa grávida.

A evolução de uma forma de arte sensual:

Com o tempo, o Kinbaku evoluiu e se tornou caracterizado, por alguns aspectos:

(1) Quietude. Tornar o prisioneiro impotente e indefeso, o que se combina com outros aspectos da cultura Asiática.

(2) Beleza. O aspecto estético. O significado da beleza na cultura Japonesa é mundialmente conhecido. Como na apresentação de uma flor, a(o) submissa(o) é apresentado como bela arte.

(3) Acrescente-se a idéia da “massagem erótica”. Alguns dizem incorporar o antigo Sistema de cura oriental utilizando pontos de pressão, acupressura (Shiatsu) e acupuntura. Utilizando cordas e nós para massagear esses pontos de pressão é uma terceira faceta. Isso parece ser mais mito que verdade, contudo, o toque erótico é uma adição sensual que pode (e deve) ser utilizado com a corda.

(4) Tempo, como os asiáticos o percebem…Kinbaku leva tempo e paciência (como cuidar de um bonsai). A (O) submissa(o) vivencia sua energia interna, a beleza enquanto relaxa e se foca no prazer da experiência. Internamente pode haver paz, mas externamente pode haver conflito.

Diagrama Kinbaku

Diagrama Kinbaku

A junção destes quatro elementos, em diferentes intensidades e níveis expressa a dinâmica da interação entre amarrador e amarrado.

O Japão, historicamente, possui a “cultura da vergonha”, e isto é frequentemente expresso em movimentos e expressões visíveis na face da m-jo (aquela que é capturada pela corda, modelo de kinbaku/shibari). Originalmente, o conflito externo, o debater-se, não era sempre desejado. Já a total quietude sim, de modo que uma jornada erótico-meditativa (essa é interessante de imaginar…) pudesse ser iniciada.

A ênfase é na mente. É possível observar o semblante sereno no rosto das modelos japonesas de Kinbaku. Elas não são cativas contra a vontade, podem agir como se fossem, mas na realidade são participantes ativas, voluntárias.  Existe uma introspecção, uma quietude. A ênfase é na beleza, na arte, respiração, meditação. É uma arte sensual, erótica, que impacta os sentidos quando todos os aspectos se harmonizam.

Dentro do Kinbaku existem pelo menos duas práticas principais:

A. A tradicional abordagem sadomasoquista, que foi herdada das práticas de tortura do período Edo, que enfatiza a dor, sofrimento, humilhação como seus objetivos básicos. O prazer ou a estimulação erótica são subprodutos destes objetivos. Não é nenhum segredo que a cultura Asiática tem mestres na arte de torturas cruéis. Quem ainda não ouviu falar na clássica “tortura chinesa da água”?  Ping…ping…ping até a pessoa enlouquecer. Havia também técnicas de tortura de nariz, de mamilos, cabelos, cera de velas, uso de pontos de pressão (para causar dor, não para aliviá-la) e o uso de “pregadores” de bambu (algo como hashis atados juntos com efeito de prensar, para mamilos, língua…).

B. Uma segunda e mais moderna prática tem como objetivo a estimulação erótica. Dentro desta abordagem, a chave para a(o) submissa(o) é utilizar a mente para alcançar o prazer. Durante a amarração, a quietude forçada e os estímulos corporais através de toques, tanto da corda como das mãos, ou através da utilização de pontos de Shiatsu para trabalhar o fluxo de energia corporal, estimula a mente e a leva a lugares inimagináveis. Para o ocidental, isso pode soar estranho, ou mesmo ridículo, mas ao permitir tempo à pessoa amarrada, a mente da mesma começa a viajar meditativamente de forma profunda. O objetivo desta jornada é liberar endorfinas, com o objetivo de atingir um orgasmo “elevado”. Essa é mais uma forma de utilização do “Chi” (ou “Ki” ou “Qui” – fluxo de energia vital do ser humano) utilizando a concentração e a vontade. A efetividade do uso do “Chi” já foi comprovada em artes marciais, notadamente o Tai-Chi-Chuan e o Aikido.

Kinbaku – Shibari

Por volta de 1950, o termo “kinbaku” começou a ser “substituído por Shibari” no Japão, baseado no verbo que significa “amarrar”, os praticantes o transformaram num substantivo para representar a arte de amarrar.


Daí pra frente, todo mundo conhece um pouco. Pessoalmente, prefiro uma mistura das duas abordagens acima. Até por que, acho muito difícil para nós, ocidentais em geral, conseguirmos embarcar na tal “jornada erótico-meditativa”, da forma descrita. Contudo acredito que uma boa analogia é o tão falado “subspace”.

O que tentei passar aqui é que há algo mais do que simples cordas, ou embrulho de pão como se fazia nas padarias de outrora.

Há uma história e razões para que o Kinbaku seja como é. O uso das cordas não sobreviveu na cultura Japonesa por tanto tempo por acaso. Acredito que a forma erótica e sexual da prática sempre esteve presente. O componente erótico já estava (está) presente no Hojojutsu. Apenas a ênfase, o foco era outro. Quando o foco muda, algo da essência permanece. Algo que diz respeito ao instinto, à motivação sexual básica presente na fantasia e criatividade humanas. Tanto é que foi na expressão artística popular que ela encontrou um meio de “retorno” à superfície.

Hoje, é mais fácil conhecer, aprender e integrar essa prática ao nosso cotidiano fetichista. E mais que nunca, não esquecer que é necessária a interação entre as pessoas envolvidas. Sempre.


Originalmente publicado em 21/09/2013

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