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Em consideração…

Em consideração…

 

Uma das situações que eu acho mais curiosas no meio BDSM é quando alguém fica na posição chamada “em consideração”. Geralmente o contexto é uma submissa[1]/bottom começa a conversar com um Dominador/Top. Conversa, no dialeto comum do “meio” é o que se comumente chama “negociação”.

Pois bem. Após uma troca inicial de informações, o Top comunica que irá considerar a adoção da bottom, que neste momento passa a ganhar o status ou título de “em consideração”. É comum em mídias sociais a expressão estar anexada ao nick da submissa, semelhante à referência da coleira (o nome do dono vem entre colchetes, parêntesis, asteriscos, sublinhados, dependendo do gosto de cada um). Só que, no que estou descrevendo aqui, a referência é a uma possível situação futura.

Eu consigo imaginar um cenário onde esse processo (o de ser avaliada, a ansiedade para ser escolhida, a esperança de que o estabelecimento da relação D/s se dará da melhor forma) seja excitante e gratificante para a submissa. Da mesma forma, o Dominador inicia o processo de controle, estabelecendo suas regras, criando o clima psicológico necessário que já pode ser um indicativo do perfil da pessoa que está sendo considerada.

Contudo…. Há perigos inerentes a esse cenário. O primeiro deles é o de que ele assuma o caráter de regra geral, ou seja, como um processo que deve acontecer obrigatoriamente no estabelecimento de uma relação D/s. Não acredito que funcione assim para todo mundo.

Garota com cartaz de busca por um mestre

Procurando um mestre…

Em  segundo lugar, é um recurso muito utilizado pelos maus caráteres que criam uma fila de espera não por que querem conhecer melhor às “candidatas”, mas por que querem se aproveitar e criar seus haréns onde a quantidade é o que importa.

Mas o que mais me incomoda é que parece que esse processo é unilateral. É como se apenas o Top escolhesse e a submissa fosse sempre a que pode (ou não) ser escolhida. Se esses papéis não são assumidos por vontade, se são apenas obedecidos porque “é assim que tem que ser” não consigo ver um bom resultado. Especialmente porque eu acho que esses papéis são bidirecionais: ambos têm que ser escolhedores e escolhidos.

Se eu sou bottom, preciso avaliar com muito cuidado quem será a pessoa a quem vou entregar o controle sobre mim. Preciso avaliar se a maneira como o controle e a dominação serão exercidos satisfaz minhas vontades. Pois é, submissa tem vontades desejos e fantasias. Mesmo que elas se traduzam em “não quero ter vontades, farei tudo que ele desejar, da forma que ele quiser” Tudo isso são escolhas. O que significa que, caramba, os Tops também têm que ficar “em consideração”!

Ilustração da posição Bracelets para escravas de Gor

Bracelets

É um engano pensar que na mais intensa relação onde ocorre uma TPE[2], que não haja análise e consideração de ambos os lados! Se eu busco uma escrava, submissa, bottom, não basta colocar um anuncio no Fetlife, e fazer a seleção de candidatas. Da mesma forma, se eu procuro um Dono, Mestre, Senhor, Top, não basta ir me prostrando, assumindo a posição “bracelets”[3] e aguardar na fila na esperança de ser escolhida.

Conversa, perguntas, curiosidade, clareza, expectativa, tudo isso ocorre quando se conhece alguém com quem se pretende estabelecer uma relação D/s, S/m, M/s, B/D, e toda combinação de sopa de letrinhas que puderem pensar. Elas são só uma forma de organizar as coisas, e são intercambiáveis, demonstrando apenas a preferência na forma com que a relação se estabelece.

Se, como eu disse no início, passar pelo processo de estar “em consideração” faz parte da fantasia de ambos os lados, mergulhem fundo e vivam intensa e prazerosamente esse momento. Se não, busquem a forma que mais se encaixa no que lhes dá tesão, no que excita a mente, no que faz sentido com o que pensa de um relacionamento desse tipo.

Senão, é só mais uma regra vazia escrita naquele manual que não existe.


[1] Geralmente uso o gênero feminino para bottom/submissa e masculino para Dominador/Top, já que reflete minha posição. Mas sintam-se à vontade para trocar os gêneros da forma que sentirem mais confortável, o que estou escrevendo independe de gênero, nesse caso.

[2] Total Power Exchange = Intercâmbio de controle e poder de forma total. Raro, pois exige muita maturidade, respeito e experiência

[3] Uma das posições assumidas pelas escravas nos romances de ficção que se passam no mundo de Gor, de John Norman.

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