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Donzela em Apuros

Donzela em Apuros

Quadrinhos eróticos relacionados a BDSM sempre foram uma grande alegria para mim. Clássico caso de juntar a fome com a vontade de comer – é, também pensei sacanagem, mas como ela se aplica, vou deixar assim mesmo. Quando comecei a tomar contato com esse rico veio de material “educacional”, não fazia idéia dos nomes dos artistas, estilos, que obras representavam, se eram originais… até porque pouca coisa de qualidade chegava por aqui; era o caso de absorver tudo que aparecia.

Depois que a gente vai aprendendo a filtrar as coisas, começa-se a separar o material de mais qualidade, conhece-se os artistas pelo traço, etc.  O que separei para iniciar esta série (Manara não conta, é hors concours) foi um clássico: John Willie.

Bem antes dos italianos nos deslumbrarem com seu estilo, alguns bons artistas de língua inglesa nos brindaram com bons trabalhos. Meu holofote neste post aponta para John Alexander Scott Coutts (nome verdadeiro de John Willie), nascido em Singapura e criado na Inglaterra. Verifique sua biografia nesta página da Wikipedia.

Seu trabalho de maior sucesso foi Sweet Gwendoline, uma garota pobre que se via em apuros e que passava mais tempo amarrada do que livre nas histórias. Falando em histórias, como quase sempre no caso de quadrinhos eróticos, é trivial: Herdeira de uma fortuna sem saber, desde que se case antes dos 21 anos. Ela é perseguida por Sir Dystic Darcy (trocadilho intencional), que ameaça executar a hipoteca da pobre casa em que Gwendoline vive se ela não

Capa do Livro "Adventures of Sweet Gwendoline", de John Willie

Capa do Livro “Adventures of Sweet Gwendoline”, de John Willie

ceder e se casar com ele. Participando da trama está uma agente secreta U-69 (censurada para U-89 em algumas publicações) que ajuda a heroína a escapar por alguns quadrinhos…Fim da história. Todo o resto é pretexto para ela ser capturada e amarrada em quase todas as cenas.

Willie tem um traço muito dentro do padrão dos quadrinhos da época (anos 50/60), exceto por dois detalhes: Suas cenas de bondage são muito bem trabalhadas, e seus efeitos de sombra e detalhes do corpo feminino (incluindo o figurino totalmente sexy para a época) são bastante realistas (embora algumas poses, dispositivos e figurinos sejam um tanto exagerados…) Ele literalmente “entendia do riscado”. O uso de modelos certamente ajudou em suas composições.

Ilustraçãode Gwendoline na posição "strapado"

Gwendoline no porão

 

 

 

 

 

 

 

 

O tema da donzela em apuros era recorrente em várias produções de cinema da época (e mesmo de épocas anteriores) onde a heroína vivia amarrada, amordaçada à espera do salvamento…Não foi à toa que Willie fez parte dos empreendimentos de Irving Klaw, mas isso é conversa para outro post.

Willie também publicou a revista Bizarre, onde misturava fotografia (em grande parte de sua esposa, que foi uma de suas modelos) e desenhos de figurinos.

Houve uma adaptação par o cinema de Gwendoline mas…quem dirigiu o filme foi o chato do Just Jaeckin (o mesmo que assassinou História de O no cinema –sim, haverá outro post sobre isso também). Jaeckin misturou as bolas, utilizando o nome de Gwendoline com o universo ficcional de um desenhista contemporâneo de Willie – Eneg (Gene Billbrew) – especificamente da obra “Princess Elaine’s Terrible Fate”. Os traços de Eneg, apesar de retratarem donzelas em apuros tem uma temática mais agressiva e menos ingênua que a de Willie. Reproduzo um trecho abaixo:

Acreditem, essa é uma das melhores passagens…(!?). O filme é tosco, os atores (como assim, atores?) sofríveis. Para ver o filme como trash é necessária MUITA inspiração, boa vontade e paciência combinadas. Mas, na época, minha jovem mente ainda sem filtro foi conferir e acabou marcada pelos arremedos de couro e borracha em mulheres seminuas. Assistindo o filme hoje (com muito fast forward) me apiedei de minha pobre alma iludida na época.

Por incrível que pareça, a única referência à obra original de Willie, além de nomes de personagens, é uma mordaça pintada à batom. Fica mais fácil entender vendo:

Desenho de uma boca com batom por sobre uma mordaça
Cena do filme reproduzindo o desenho de batom sobre a mordaça.

Como podem perceber, os quadrinhos mereciam coisa melhor. Mencionei o filme como uma curiosidade.

Ainda hoje, a obra de John Willie merece apreciação. A coleção completa revista Bizarre foi reeditada em dois volumes, que podem ser encontrados em livrarias online.

Lombada dos livros da coletânea dos trabalhos de Willie na revista "Bizarre".

Coletânea dos trabalhos de Willie na revista “Bizarre”.

Há diversas insinuações sobre o lado divertido e excitante de amarrar e ser amarrado(a), obviamente de forma velada para a época. John Willie chegou a descrever e ilustrar sua amarração “G-String”, da qual dizia que nem Houdini escaparia.

Por mais que minha preferência seja o Kinbaku, não vou negar que o estilo de Willie (e de Klaw, tornado inesquecível através de Betty Page) dá uma vontade de…

Quadrinhos de Gwendoline, um casal amarra a heroína.

Texto publicado originalmente em 28/092013

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