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Celebração

Celebração

“Oh lorde dos meus desejos, senhor das minhas vontades, ar que eu respiro, dono dos meus pensamentos, rei da minha alma…”

Parece um tanto exagerado não? Os tratamentos utilizados no meio BDSM não tem um padrão definido ou oficial (ainda bem). O que não quer dizer que se deva aceitar o caos ou uma ordem forçada. Apenas creio que sair utilizando títulos e tratamentos à torto e à direito porque alguém os utiliza, ou por imitação não me parece uma boa idéia. Acho que o uso de termos fora de contexto pode banalizar o uso e o valor deste termo.

Mulher amarrada a uma cruz de cabeça para baixo.

Liturgia?

A primeira e maior confusão me parece ser ao que se denomina livremente liturgia (já falei disso em outro post). Originalmente o significado está essencialmente ligado a cerimônias de uma religião. Da maneira que interpreto, não é apenas uma lista de práticas religiosas, mas uma maneira de formalizar uma comunhão com a fé processada na religião que a liturgia simboliza. Formalizar no sentido estrito de dar uma forma simbólica de expressão dessa fé, através de cerimonias e rituais.

O que vejo acontecer é algo como: quem usa títulos e pronomes de tratamento, adota uma postura bastante evidenciada através de lugares bem definidos, com as posições e papéis assumidos, é considerado (ou se considera) litúrgico. Quem não adere a esse código (supostamente unânime) não é litúrgico. A presunção de valor maior para os litúrgicos e de menor para os não litúrgicos é apenas uma das maneiras pelas quais acho isso tudo confuso em múltiplos níveis.

Para começar, falemos de protocolo e tratamentos. Protocolo é um acordo (é, acordo, não imposição) que estabelece regras de comunicação para que a mesma aconteça de forma clara para ambas as partes envolvidas. Um protocolo pode incluir regras de tratamento entre essas partes que as seguirão porque concordam ser esta a maneira que funciona e é significativa para elas.

Senhor, Senhora, Senhorita. Bom dia, Boa tarde, Boa noite. Simples, eficiente e respeitoso.

Então, podemos facilmente transportar isso para o mundo  BDSM: Dom, Domme, Senhor, Senhora, Mestre, Mistress, Dono, Dona, submissa, submisso, sub, escrava, escravo, sissy, cão, cadela, Meu, Minha, Dele, Dela…é só pegar e usar né? Aí eu viro litúrgico e sou considerado uma pessoa séria.

Creio que não. O uso fora de contexto desses títulos é prejudicial tanto para quem apenas os usa sem pensar como também para a imagem de quem é realmente sério. A palavra chave aqui é contexto. O contexto da fantasia de cada um é o que vai emoldurar o que se deseja transformar em realidade e vivenciar de forma consciente. Contexto vai definir os protocolos. Contexto vai dar valor aos títulos.

Gor, Roissy, Ironwood, Dungeons, Canis, Clubes…podem ser fontes de inspiração ou nomes em citações arrogantes. Não importa sua escolha de referência, ela tem que ser verdadeira para você e para quem compartilha o mesmo contexto. E nunca imposta como um muro separatista ou aceita como alternativa para “se misturar”. Defenda sua curiosidade para que ela se transforme em conhecimento.

Perceba que a entrega de um anel pode significar uma cerimônia de encoleiramento mais profunda e significativa do que uma cerimônia com trajes ornamentados e coleiras de ouro. Entenda que nem todo Lorde ou Rainha auto intitulados são motivo para chacota. Acredite que sentar ao lado da submissa não quer dizer desrespeito ou ofensa, que gentileza não é fraqueza. Gritos e violência não impõe respeito, entrega é um ato de poder.

Os protocolos devem ser claros para que sejam respeitados. Se eu sou flexível, e me predisponho a conviver em um ambiente onde a formalidade é uma regra, ou eu aceito e participo ou procuro outro espaço. Se eu sou formal e busco um ambiente com regras claras e comportamentos definidos, não devo força-los como se meu jeito fosse melhor que o do resto do mundo.

Nem toda formalidade é rígida. Nem toda flexibilidade é séria. Respeito. Contexto.

Se eu digo a alguém que ela é minha, é porque isso é mais do que uma conta, carimbo, ou a maneira correta de me dirigir. É porque isso tem um valor que extrapola a palavra. Se alguém me chama de Dono, aceito se me sentir merecedor; serei proprietário de muito mais que um saco de pele, ossos e sangue.

Posso ser tratado por Senhor porque isso pode ser importante para quem me chama assim, contudo serei Senhor apenas de quem me pertencer. Se uso iniciais maiúsculas em algumas palavras, pode ser simplesmente para facilitar a compreensão de um conceito, e não porque “deve” ser assim.

Mulher nua, de quatro, no chãoSe hei de chamar minhas ações em um relacionamento  BDSM de liturgia, que elas sejam cerimoniais e importantes porque nelas construo meu ser com o outro, que sejam respeitosas porque são compartilhadas, importantes e valiosas para com quem as divido. Que o protocolo de tratamento, seja indicativo de substância e não de forma. Que os comportamentos, indumentárias, locais sejam iluminados pelo que representam na minha vida. Que o que eu trago do imaginário para o real seja uma celebração do que eu acredito, não importa se requintado ou simples, se pomposo ou casual.

Que meus rituais, cerimônias, momentos, lugares, palavras sejam a minha liturgia não por que são minha religião, não porque é o que muitas pessoas dizem, escrevem, falam, exibem. Mas porque são cheios de significado, emoção, paixão, tesão, intensidade e tornam especiais esses momentos em minha história de vida.

Amém.


Post originalmente publicado em 27 de julho de 2014

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