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Bússola

Bússola

Eu tenho observado há algum tempo, seja em posts de redes sociais, seja em perguntas que algumas pessoas me fazem, histórias que ouço, entre outras fontes, que as pessoa que estão chegando ao BDSM tem algumas coisas em comum.

Kit BDSM de Sex Shop

BDSM instantâneo

Temos os curiosos, que, aproveitando qualquer aparição que mencione as 4 letrinhas no mainstream (ou seja nos meios de comunicação do seu dia a dia), resolve que vai experimentar, tirar uma onda. Geralmente, isso é resolvido com uma ida a sex-shop mais próxima, onde alguns itens de corino ou vinil de qualidade duvidosa são adquiridos, e “bora” para o motel apimentar a relação.

Façamos aqui uma pausa, um minuto de silêncio, onde eu me desculpo por te evocado essa cena na mente de pessoas sérias que sabem o que fazem.

Passemos a outro grupo, os entendedores. Estes lerão os livros, verão os filmes, irão decorar os textos mais fáceis e posarão de conhecedores sobre o assunto, seja como “tops” que falarão sobre a forma correta de se comportar, como “bottoms” que falarão sobre, deixe ver aqui…a forma correta de se comportar. Não precisam ter tido nenhuma experiência real, já que são “profundos” conhecedores do assunto. Algo como um relógio a prova d’água de camelô.

Avançando em complexidade temos as pessoas que evoluíram das formas anteriores, e descobriram que mencionar muita experiência no assunto tem o poder de elevá-las a uma categoria superior. Facilmente reconhecíveis através da frase “XXX – a pessoa em questão – tem YYYYYYYY- a quantidade de y é diretamente proporcional à hierarquia do status desejado – anos de BDSM”. Exemplos: Dom Lorde Ultra Mega Power Dark (Dark é um qualitativo que denota muito conhecimento) tem 25 anos de BDSM, tendo começado aos 12 anos de idade. Ou Kajira dos Sete Véus da Casta Vermelha de Turia possui uma alma submissa verdadeira (alma submissa e verdadeira são intercambiáveis com resultados valorativos semelhantes)

Mais graves são pessoas que realmente são praticantes e já convivem no meio BDSM utilizarem estas falácias para autopromoção e propagação de hierarquias e códigos sob a égide da palavra “liturgia”, e que querem ditar comportamentos universais, ignorando abordagens diferentes das apresentadas por eles consideradas como erradas ou inválidas.

Mais um parêntesis para deixar claro que não tenho nada contra quem se inspira no mundo criado por John Norman ou por quem segue qualquer protocolo ou ritual. Estou me referindo a caricaturas fora de contexto com ares de verdade absoluta.

Vamos colocar aqui os que buscam o meio para aplicar golpes perpetrar crimes, seja como tops ou como bottoms. Isso existe em todo e qualquer grupo. Aqui contudo cabe o cuidado extra pois a integridade física ou a reputação de pessoas corre sério risco de sofrerem traumas severos.

Aí eu me pergunto: o que faz uma pessoa que genuinamente se reconhece como possivelmente parte desse meio, e que encontra esses cenários descritos acima pela frente? Foge e ignora? Pode até ser. Mas garanto que se o desejo, a vontade de viver qualquer expressão do BDSM fizer parte de quem essa pessoa é, ela vai voltar

E provavelmente, se for uma pessoa de bom senso, irá perguntar, ter dúvidas, e buscar esclarecê-las. Sendo uma pessoa que se reconhece com defeitos e qualidades, não engolirá qualquer história como verdadeira.  Sendo uma pessoa curiosa, irá explorar e discernir entre fatos e falácias.

Irá buscar grupos de pessoas com experiência real irá frequentar eventos, e ver o que é ilusão e o que pode representar algo concreto. Irá entender o que mais se encaixa com o que sente.

Irá descobrir as práticas e como realizá-las de forma segura. Irá com muita paciência descobrir outras pessoa que tem desejos complementares e semelhantes.

Tudo isso tendo sua própria personalidade como uma bússola. Pessoas centradas que sempre buscam o norte a partir de si mesmas, que navegam por oásis e enfrentam tempestades, mas sem se perderem de si mesmas.

Porque por mais que outras pessoas desenhem o mapa porque já passaram por aquele caminho, não só podem existir outros caminhos, como a experiência na mesma rota pode ser totalmente diferente. Somos seres únicos cada um de nós. Podemos concordar com arcabouços que nos permitam entendimento e nos deem uma base para falarmos de um assunto sem se tornar uma Babel onde cada uma fala de uma coisa diferente ou tem uma interpretação que acha única sobre determinado tema.

Mas isso não significa que tenhamos que nos tornar zumbis acéfalos, ou que tenhamos que ser messias e profetas de verdades únicas. Vejo tanta gente insegura em busca de um palco, vejo tanta gente querendo ser plateia e fazer parte de um grupo, pois acha que só assim será reconhecida.

Não é muito complicado não. Tenha disposição para aprender, não deixe seus valores serem atropelados por ninguém e sigam o caminho que fizer sentido. É só mais uma experiência da aventura que é viver.

Tatuagem com o texto "Die wit memories , not with dreams"

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