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Até Onde?

Até Onde?

Humilhação costuma ser um tema polêmico e frequentemente entendido fora do contexto de qualquer tipo de relacionamento BDSM. Vou então cutucar este ninho de marimbondos com minha visão sobre o tema. O que o tédio não faz…

A primeira coisa que preciso dizer é que, mesmo colocada no contexto correto, humilhação é uma prática que não é para todo mundo. Não por ser politicamente incorreta, é porque para algumas pessoas ela não funciona, não estimula, como qualquer outra prática.

Pausa para explicar aos incautos que nem toda prática é para todos, o que os defensores do Sagrado Manual do BDSM – que não existe – tem dificuldade de entender. Nem todo mundo gosta de tudo nem todo mundo detesta tudo. As afinidades com determinadas práticas formatam o caminho a trilhar num relacionamento BDSM, seja ele qual for.

Voltando, se não funciona, se não há identificação, não pratique. Simples assim.

A segunda coisa a ressaltar é que humilhação é politicamente, socialmente, emocionalmente, eticamente incorreta. Diminuir o valor de outra pessoa, por qualquer razão, – especialmente se essa diminuição estiver atrelada a qualquer característica daquela pessoa, seja esta física, de gênero, status, poder aquisitivo, raça – é desprezível, estúpido, escroto, arrogante, criminoso e mais um monte de adjetivos que vou economizar aqui.

Dito isto, temos o contexto de um relacionamento BDSM onde papéis são assumidos pelas partes. Tudo que é praticado nesses papéis parte de um acordo mútuo e consenso (ô palavrinha que tanta gente esquece) entre os envolvidos. A humilhação pode fazer parte das práticas desde que:

  • Esteja baseada neste acordo
  • Se dirija ao papel exercido e não à pessoa exercendo o papel (e isto tem que estar claro principalmente para a pessoa que está sofrendo a humilhação)
  • Funcione, faça sentido, cause excitação, se encaixe no desejo de ambos os envolvidos

A última e mais importante da lista acima é a condição sine qua non[1] para a execução da prática.

Mulher agachada com os braços atrás da cabeça, usando um vestido branco e cinto preto e sandálias pretas

Seja cuidadoso e consciente ao escolher essa prática…

Pausa novamente. Assim como não há o tal manual, não há uma única forma de humilhação que sirva para qualquer pessoa. O que funciona para um, dentro de todo contexto acima, pode não funcionar para outra (como com qualquer outra prática).

E, finalmente, e o mais importante, é preciso entender quem é a pessoa, o que a move, quais seus limites, o que faz efeito com ela. Isso vale para tudo. Isso é o único modo de se viver este tipo de relacionamento respeitando o consenso. O resto, é balela.

Minha definição de humilhação neste contexto, vai longe de “maneiras de rebaixar” a (o) bottom. Eu a vejo como o limite máximo da servidão oferecida por esta pessoa, a maior extensão da diferença estabelecida na hierarquia em questão, seja ela leve ou extrema.

Até onde esse(a) bottom irá para demonstrar o nível do seu comprometimento? Até onde assumir esta posição, muitas vezes degradante? Eu arrisco uma reposta[2], baseada em minha experiência: até onde ressoa dentro da mente e do corpo dessa pessoa que assumir esta posição, realizar este tipo de ação, causa prazer, faz sentido, casa com o que ela deseja, com o que ela sente. Ser humilhada(o) pode ser um rebaixamento na aparência, mas uma elevação no nível das sensações e da vivência daquele tipo de relacionamento de uma forma inigualável. O que deveria valer para qualquer prática e seu significado, mas não vou divergir para isto aqui. Porque aqui o equilíbrio tem que ser muito sutil, e o cuidado tem que ser extremo de ambas as partes para se manter dentro do limite.

Esse limite máximo dentro do contexto é a bússola e o guia. Talvez seja uma das práticas onde a sensibilidade e a percepção do(a) outro(a) deva ser o foco principal. Onde uma palavra pode remover a prática do contexto e aí, o encanto se quebra, e o sublime se transforma em ofensa, em mágoa, em tristeza.

No entanto, conduzir e ser conduzida(o) nesta prática pode ser extremante poderoso e compensador. Tanto que ao reconhecer em si mesmo(a) a capacidade de imergir nessa prática pode redefinir sua percepção do quanto viver esse tipo de relacionamento é vital e importante, e não apenas “fazer uma sessão”. Porque até mesmo uma sessão precisa de contexto e de envolvimento das pessoas que lá estão. Clareza é saudável. Acreditem.

Estar sempre atento a(o) outra(o) é fundamental para qualquer prática. Isso é o que me norteia. Isso é o que me torna flexível o suficiente para saber que cada relacionamento é único, por mais que ele contenha minhas práticas favoritas, por mais que tenha minhas regras e desejos. Porque a outra pessoa também as têm.

Imponha e conduza sempre dentro do consenso. Se ele não existir, sinal de que ou a prática ou o relacionamento podem precisar de ajuste, ou até mesmo, deixar de existir. Porque dentro do consenso, as possibilidades só se limitam pelas pessoas que o definiram. E isto pode ser uma viagem intensa e prazerosa, imperdível. Uma viagem que pode marcar sua vida.

Figuras 3d transparentes, masculina e feminina, frente a frente, com atividade cerebral ressaltada por pontos luminosos

Quanto maior a sintonia, melhor a experiência

[1] Sem a qual não acontece, imprescindível.

[2] Você pode ter toda intensidade do mundo em seu relacionamento, sem praticar humilhação. É sua relação, é seu mundo. Não estou definindo verdades, nem competindo com ninguém, ok?

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