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A “Vida Fácil” de um Top

A “Vida Fácil” de um Top

Nos dias de estereótipos e falácias em que vivemos, nada mais natural do que o imaginário inverossímil referente a Tops e Bottoms. Neste texto, no entanto vou me ater aos Tops. Quem sabe em algum ponto no futuro escreva sobre o outro lado.

Resumindo a alegoria popular o Top[1] estará sempre de roupa social, ou terno (quiçá smoking), terá sempre uma legião de bottoms a seus pés, algumas de posse própria, sempre utilizará o alto protocolo para se comunicar, não admitirá jamais ser questionado, utilizará algum título aliado ao nome, e assim reinará no meio, junto a seus pares. Ele geralmente sabe de tudo, conhece tudo, fala sobre tudo, e talvez traga na bagagem duzentos anos de experiência no “meio”. Tudo muito fácil, basta “ser Top”.

Consigo até visualizar as imagens de Internet onde este ser é retratado, e, mais uma vez eu digo, não vejo nenhum problema em vários itens dessa fórmula (afinal, ela foi baseada em alguma coisa real). Mas se essa imagem não tiver substância, e o(a) parceira não corresponder a estes critérios pelo lado bottom, tudo se resume a uma ilusão.

Não é fácil iniciar um relacionamento e encontrar uma pessoa que se encaixe com nossos desejos. Porque tem que haver troca, o prazer deve ser dividido, não importa em qual cenário. O que irá se estabelecer é baseado em acordo e consenso e não em imposição unilateral de qualquer um dos lados.

Não é fácil estabelecer as regras sem limites e sem conhecimento mútuo. Porque o que faz funcionar é o entendimento de como o outro funciona dentro do que foi combinado. Pessoas diferentes reagem de formas diferentes.

Não é fácil dominar uma prática, ter conhecimento dos riscos e das medidas de segurança necessárias. Porque por mais que a outra pessoa se submeta a essa prática, ela não é uma boneca de anime ou mangá, nem atriz, nem a foto de estúdio onde tudo pode acontecer. A não ser quando acontece, e aí temos crime e não consenso.

Não é fácil preparar um cenário sem considerar que acidentes podem acontecer. Porque mesmo o Top e a Bottom mais experientes estão sujeitos a imprevistos. Admitir que eles podem acontecer é mais que sensatez, é sabedoria.

Não é fácil cuidar dessa pessoa após uma cena, sessão ou qualquer que seja o nome do encontro dos desejos. Porque a atenção tem que ser total, o cuidado tem que ser sincero, o acolhimento tem que ser genuíno. Porque, sem respeito só há o vazio.

Não é fácil assumir a responsabilidade suprema de utilizar o poder que lhe é concedido pela pessoa com quem o relacionamento se estabelecerá. Não importa quão “pesado” e arriscado seja esse relacionamento, o respeito a esse poder concedido é o primeiro passo do consenso.

Porque não perder a outra pessoa de vista, seus sentimentos, sensações e emoções é fundamental. Não importa qual seja o papel que ela irá assumir

Sem tudo isso, a alegoria é falsa, é etérea, e se desfaz no primeiro sopro de realidade.É só uma imagem bonita. Imagens podem mentir, palavras podem iludir, atitudes não. Desde que se esteja atento e disposto a viver a realidade e não a fantasia.

A fantasia sempre estará presente. Mas ela será parte e não o todo. A beleza é o que irá se descobrir e trocar, não a estética de um “dress code”. Como eu não canso de me repetir, a realidade sempre será melhor que o sonho.

[1] Neste texto estou falando de minha própria experiência então o Top será cis hétero, mas, por favor, não vai aqui nenhuma tendência, preferência, preconceito ou exclusão. O que direi pode em sua maior parte ser adaptado para qualquer outro gênero.

 

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