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A Morte dos Absolutos

A Morte dos Absolutos

Às vezes, quando começo a escrever, tenho a sensação de que estou me repetindo. Às vezes intencionalmente, mas outras é só um sinal de como as coisas não mudam. Desta vez, estou falando sobre como é difícil, para quem está iniciando no BDSM, ultrapassar uma série de falácias, regras, protocolos estabelecidos por algumas pessoas que se arvoram em juízes de comportamento baseados no vazio disfarçado de conhecimento.

Vou dar algumas dicas aqui de como geralmente essas pessoas se apresentam. Quem sabe alguma alma perdida que esteja lendo esse texto o considere útil e faça uso dele para se livrar de algumas enrascadas…

Imagem da personagem Samara do filme

Tome cuidado com”subs de alma”

Falando em alma… Alma é um termo muito utilizado como garantia de autenticidade. Embora para algumas pessoas “alma” signifique a expressão de algo essencial e significativo, que é uma parte fundamental de como ela se percebe no mundo, Para as pessoas de quem estou falando ele é um critério de separação utilizado por uma suposta elite. Especialmente se associado à expressão “sub de alma”. Esta é tida como a submissa suprema, tecendo odes épicas, poesias longas que representam sua superioridade na submissão.

Obviamente, para fazer par com um ser tão brilhante, temos os chamados Dons Verdadeiros. Mais uma vez, o “verdadeiro” funciona como um atestado que diferencia estas pessoas do “resto”.  Estas pessoas alegam ter um conhecimento total sobre tudo, e sempre sabem a maneira certa pela qual todos devem se comportar para serem considerados “Verdadeiros”.

Este grupo geralmente segue alguns protocolos baseados no inexistente documento “Manual Sagrado do BDSM” e geralmente expressam esse sagrado chamando essas “regras” de “liturgia”. Quem não segue estas regras é ignorante, falso, incompetente porque não sabe tudo que deveria saber.

Ainda neste pacote temos o “tempo de BDSM”. Estas pessoas utilizam os anos em que estão no meio BDSM como um distintivo brilhante. Quanto mais tempo, mais importante é a pessoa. Não importa seu conhecimento real, a antiguidade garante o status.

E, como cereja do bolo, BDSM está reduzido apenas à D/s.

Esse contexto está muito presente nas mídias sociais, que estão cheias de pessoas que tomam as posturas acima  como sinônimo de autoridade, mesmo que boa parte delas nunca tenha vivido nada fora da internet, muitas não conhecem práticas ou as técnicas nas quais elas se baseiam, aumentando o risco caso venham a concretizar alguma coisa.

Tudo isso me incomoda muito. Em especial quando toda essa soberba é despejada em cima de pessoas que estão começando, e que, por não aderirem imediatamente a toda essa baboseira, são ofendidas, discriminadas e tratadas como se não tivessem o direito de estar ali, pois não sabem tudo sobre tudo ou não se comportam como o esperado.

Estou cansado disso. Os absolutos são a morte da individualidade. O BDSM é uma subcultura que deveria ser libertadora, um ambiente onde deveria ser possível vivenciar a parte de nós mesmos que possui a intensidade e a unicidade de uma forma de expressão geralmente não compreendida pelo mundo “normal”.

Imagem de um livro

Foto inédita do inexistente “Manual Sagrado do BDSM”

Ao invés disso, – na internet especificamente – é um meio tóxico e preconceituoso, onde associam-se os arrogantes, abusadores, ignorantes, seguidores de tendências e os inseguros assumindo um papel de autoridade e de detenção do conhecimento, não importam se são Tops ou Bottoms. O grupo reforça a si mesmo o tempo todo onde os que buscam quem diga o que fazer com receitas de bolo encontram os que buscam uma audiência para reforçar o seu poder.

Até aí não haveria problema, se eles seguissem seu próprio caminho e vivessem felizes para sempre. Mas a sede pelo poder ultrapassa o desejo e o prazer de viver a imensa variedade de possibilidades da subcultura BDSM. Para esses grupos, o importante é ter razão. Ter seguidores vale mais que troca de conhecimentos. Tornam-se bullys – para quem não sabe, é quem pratica bullying -e é isso que me tira do sério.

Alguém que chega querendo participar do BDSM vai, sem sombra de dúvida utilizar a internet. As pessoas hoje pesquisam no Google desde o melhor caminho para atravessar a rua ou como fazer um chicote, e aceitam o primeiro hit como verdade. Se vão ser atropelados ou criar um instrumento inútil, é algo que só irão perceber quando for tarde. Porque o imediatismo, a busca pela coisa pronta, resolvida, mastigada, é o que contenta a maioria.

A internet se tornou o instrumento de dois gumes mais perigoso do planeta. A possibilidade de encontrar informações é proporcional à facilidade de encontrar desinformação. E os resultados, a meu ver tendem para a segunda opção.

Existem pessoas e grupos, especialmente fora do Brasil, que buscam reverter essa tendência. Mas aqui nestas terras certamente há grupos de pessoas que se alinham com essa postura. Alguns exemplos dessa visão:

  • Não aceite qualquer coisa, questione. O que você pensa é importante
  • Você pode não saber. Você deve perguntar. Ninguém tem pode te diminuir por isso
  • Ninguém deve determinar como você deve se portar. Essa escolha é sua.
  • Entenda os termos, bases, o conjunto que emoldura a subcultura BDSM.
  • Conheça as práticas. Não participe de nenhuma sem entender como ela funciona.

Entre muitas outras coisas. A principal diferença é que buscam oferecer um ambiente acolhedor e favorável, onde o foco é a vivência no mundo real – fora da internet.

O grande problema é que esse caminho não é fácil. Ele não tem receita, tem informação. Ele não diz o que você deve fazer, mas tem pessoas que praticam e que podem te mostrar como aprender. Isso dá trabalho, mas é compensador.

A perseguição da verdade absoluta gera o fanatismo e a cegueira. Todo fato é distorcido de forma a validar o discurso de cada facção. E toda facção insiste em que apenas sua verdade é válida. Junte-se a facção ou sofra as consequências.

A escolha é sua. Ser humano ou “cerumano”?

Sinto que minhas palavras não têm muito eco. Mas não deixo de escrevê-las. Teimoso. Iludido? Esperançoso? Não sei. Minha verdade não é única. Busco o equilíbrio.  A jornada é trabalhosa, mas minha história de altos e baixos é repleta de possibilidades. As escolhas e suas consequências são minhas. As boas e as ruins.

Bifurcação em caminho no meio de uma floresta

A escolha é sua.

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